Quinta-feira, 7 de Junho de 2007

Não merecia o meu amor

O AFL nunca mereceu o amor que durante anos lhe dediquei. Cada vez que penso nisso, no quanto lutei para conseguir que ele gostasse de mim como eu gostava dele, recordo esta crónica da Margarida Rebelo Pinto:
 
"O camponês e a rapariga"
 
"Era uma vez um camponês de pensamentos simples e poucas posses que se apaixonou pela rapariga mais bonita da aldeia. Ela tinha tudo o que a ele lhe faltava: graça, inteligência, popularidade, brilho, mistério.
 
Ela era bonita, ele igual a tantos outros. Ela era alegre e divertida, ele tímido e metido consigo mesmo. Ela era fogosa e provocadora, ele mais parecia uma mosca morta. Ela tinha graça quando andava, ele parecia que tinha os sapatos pequenos para os pés. Ela brilhava, ele era fosco como uma lâmpada. Ela tinha a força do sol, ele a sombra da lua. Ela não gostava de ninguém e ele gostava dela.
 
Um dia, junto à fonte, declarou-lhe o seu amor e ela riu-se dele. Então ajoelhou-se aos pés dela e jurou-lhe amor eterno. Ela riu-se outra vez e respondeu com escárnio e desprezo: amor eterno, isso não existe. Mas ele não desistiu. Queria amá-la para sempre e estava disposto a honrar o seu amor por ela.
 
Então ela olhou para ele com mais atenção e pensou que até podia amar um dia aquele homem, tão igual a tantos outros, e lançou-lhe um desafio. Durante cem dias e cem noites ficarás debaixo da minha janela à minha espera. Faça chuva ou faça sol, caia neve ou trovoada, noite e dia, dia e noite. Cem dias e cem noites. Se aguentares tanto tempo, então é porque mereces o meu amor.
 
O camponês regressou a casa com o coração cheio de esperança. Cem dias era um preço baixo a pagar para ter a sua amada. O tempo iria voar, tinha a certeza.
 
No dia seguinte, fez o farnel e foi para debaixo da janela dela. Esperou que ela aparecesse e acenou-lhe quando a viu espreitar pelas frestas das portadas. O mesmo aconteceu na segunda noite. E na terceira. E na quarta. E em todas as noites que se seguiram.
 
Todos os dias, a qualquer hora, lá estava ele, à espera de um sinal dela, para lhe mostrar que estava ali, de pedra e cal à espera de merecer o seu amor. Acabou o verão. Chegou o frio. Depois a chuva. Depois a neve. E o camponês sempre perfilado como um soldado na parada, à espera que ela o espreitasse pelas portadas para lhe poder mostrar que estava ali, a cumprir o seu desígnio, a resgatar a sua promessa.
Nunca durante todos esses dias ela abriu a janela para o saudar. Nunca lhe abriu a porta e o convidou a entrar e descansar da sua vigília. Nunca lhe ofereceu um sorriso, uma palavra de afecto, um instante de atenção.
 
Mas ele continuava lá, agora já cansado, enregelado pelo frio, ferido pela indiferença dela, desgastado pelo vento e pela chuva, faminto e triste, sentindo-se cada vez mais só...
 
Na nonagésima nona noite ele esperou mais uma vez por ela. E mais uma vez ela não apareceu. O camponês abanou a cabeça, sentou-se no passeio e chorou durante muito tempo. Tanto tempo que a noite passou e o dia começou a nascer.
 
Tantas horas de espera, tantos sonhos no seu coração, tanto amor para dar e afinal nada valera a pena. A rapariga continuava a ignorá-lo, a fazer troça do seu amor. Sentado no passeio, chorou e viu as suas lágrimas formarem um fio de água que ia ter ao rio, e este ia ter ao mar. Viu o seu amor diluir-se, sentiu que a sua paixão não era nada, comparada com outras paixões que moveram mundos, povos e montanhas. Era só um fio de água que corria para se juntar ao mar.
 
Foi então que o camponês percebeu. Percebeu que não era ele que não era digno do amor dela, ela é que não merecia o amor dele. Que tudo o que ele amava naquela rapariga era uma ilusão, não existia. Que o seu esforço só lhe tinha servido para aprender a conhecer-se e a aceitar-se melhor a si próprio. Era um homem livre.
 
E no dia seguinte, quando ela abriu a porta para se entregar a ele, rendida por tanto amor e paixão, ele tinha-se ido embora.”
 
As crónicas da Margarida - Margarida Rebelo Pinto

 
Clauclau às 00:46

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4 comentários:
De aspalavrasnuncatedirei a 7 de Junho de 2007 às 01:26
Olá!

Gosto muito desta crónica da Margarida, principalmente da lição de moral que ela apresenta.

Passei para te dizer que acho que és uma «Mulher Fantástica» e que te dediquei um post no meu blog. Passa por lá.

Boa noite, bom feriado.
De Clauclau a 7 de Junho de 2007 às 11:43
Também gosto muito dos livros da Margarida Rebelo Pinto e da Joana Miranda. Muitos as acusam de ser escritoras light. Não concordo nada. Adoro a forma como escrevem, as histórias que narram e o vocabulário simples que utilizam. Talvez se muitas raparigas (já não falo dos rapazes porque esses não são lá muito dados a leituras de romances) lêssem um dos livros delas antes de ser "obrigadas" a ler Saramago, José Cardoso Pires ou até mesmo Eça (Não desfazendo, porque adoro toda a obra de Eça de Queiroz), poderiam ter outra ideia do prazer que dá ler páginas e páginas seguidas, sem parar, na ânsia de chegar ao fim do livro. Muitos alunos vêem a leitura apenas com um fardo, como sendo obrigados, não retirando daí qualquer prazer. E eu sei o que é isso. Recordo que quando no secundário vi o tamanho do livro OS MAIAS me deu uma coisa má. Não queria de todo ler o livro. Era enorme e achava que nunca seria capaz de ler aquilo tudo, em tão pouco tempo. Quando mais tarde voltei a ler o livro, já por prazer e não por "obrigação", adorei o livro e na altura li todas as obras de Eça de Queirós.

Bom feriado!
De noche a 22 de Junho de 2007 às 22:37
lol

por acaso obrigarem-me a ler os maias foi do melhor a que já fui obrigado...

comigo infelizmente leituras tem que ser mesmo À força... isto é auto flagelação... mea culpa! já li alguns mas estou há um mês na 4ªa página do adeus minha concubina....adorei o que li até agora mas parece que tenho bichos carpinteiros e arranjo sempre outras coisas para fazer... eu sei é infantil mas quem dia a verdade não merece castigo (só auto flagelação) :)

o texto do teu post faz-me lembrar o filme cine paraiso

e acho que é o que me vai acontecer dentro em breve... com a diferença que eu não tenho esperado A`porta... ainda penso na sofia...e tenho montes de insegurança para avançar para outra pessoa especialmente sendo essa pessoa a força em pessoa... mas acho que vou arriscar e se n der vou para um convento lol
De Clauclau a 23 de Junho de 2007 às 20:23
Pois... pois... um convento! Um frade no meio de tanta freira... todas só para ti. Havia de ser bonito! lol

Também ainda penso no AFL , mas não de forma sistemática. É mesmo quando estou mais em baixo e me sinto mais sozinha. E quando penso nele, já não é de forma carinhosa. Agora interpreto tudo o que estava nas entrelinhas e que eu não via. Sei que nunca o perdoarei, que nunca voltaremos a ser os amigos que éramos antes de começar a namorar.
E chorar para quê... é o ciclo da vida...

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