Terça-feira, 7 de Agosto de 2007

Obrigação quotidiana

Violetta interrompeu-o com um gesto de polícia urbano. Achava que já tinha apanhado o essencial.
- Portanto, tu não queres viver comigo.
- Não é isso... é que...
Enquanto Eugénio gaguejava, ela completou a análise.
- E em casamento, nem se fala. Imagino que não queiras de maneira nenhuma casar comigo.
- Casar? Mas desde quando? Mas quem? Nunca falámos em casar...
a mesma vizinha que tinha classificado as batatas como legumes dirigiu a Eugénio um olhar de puro nojo, agarrou no tabuleiro e levantou-se para mudar de lugar, depois de lhe ter dito: - Tenha vergonha! Eu chamava-lhe «pulha» se não fosse tão bem-educada. Por isso, seu canalha!
Violetta dedicou-lhe um sorriso de agradecimento e depois voltou a tacar o tema. Só tinha meia hora antes de voltar ao trabalho e queria acabar aquela conversa.
- Não queres viver comigo e não queres casar. Então, por que é que hei-de acreditar que me amas? Tu não me amas, não é verdade?
- É claro que te amo! Mas amar não significa viver juntos vinte e quatro horas por dia sob o jugo da rotina, coagidos à obrigação quotidiana do compromisso, dobrados no cansaço da aceitação recíproca e total!
Apesar de impecável construção da frase, Violetta não se deixou vencer.
- Mas também não quer dizer andar sempre para aí sem fazer nada, como dois miúdos de dezasseis anos que vão ao cinema, e jantar fora, e que de vez em quando fazem sexo e trocam presentes de aniversário. Isso está bem durante algum tempo, mas depois chega!
- E então?
- Não sei. Ficamos por aqui? Vamos acabar?
Eugénio ficou de boca aberta. Considerava tudo aquilo sumamente injusto, uma perfídia de que nunca acharia capaz a sua Violetta , uma rapariga doce como um torrão, bonita e simpática, autónoma e pouco possessiva, sempre distraída com os seus pensamentos, de tal maneira que nem sequer tinha dado conta daquelas três ou quatro histórias estúpidas que ele tivera ao longo daqueles famosos dois anos e três meses ou lá o que era. Uma rapariga que ele não trocaria por mais nenhuma, mas pela qual ele não contava nem tinha contado renunciar a todas as outras, e que agora o ameaçava, lhe impunha a escolha entre duas hipóteses igualmente horripilantes, perdê-la para sempre ou para sempre ficar com ela...
- Espera aí! Não há razão para seres tão agressiva. O que dizes de me dar algum tempo para eu pôr as ideias em ordem?
- Ok, põe as ideias em ordem, mas primeiro verifica se estão maduras.
- Satisfeita com aquele fecho, Violetta pegou no tabuleiro e dirigiu-se à saída. Ao passar, trocou um olhar de entendimento com a senhora das batatas."
 A abelha do amor – Stefania Bertola

 
Clauclau às 11:40

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