Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

Enganos e desenganos

"- Eu só queria ter a certeza de que ela está bem, aquela imbecil. Podia ao menos ligar-me!
- O que é que eu faço? Beijo-te para te consolar, e depois uma coisa puxa a outra, e finalmente fazemos amor?
Violetta abanou a cabeça: - Não, olha, não é de todo boa altura. Aliás, eu nem sequer devia estar aqui a falar comigo. Devia ligar ao Eugénio. Era ele que me devia consolar.
- Certo. Então liga-lhe. Pega no telefone e liga ao Eugénio.Não interessa que não seja uma coisa muito espontânea da tua parte. As melhores decisões são as que se tomam de cabeça fria, lembra-te disso.
Violetta olhou para ele desconfiada.
- Estás a gozar comigo? Porque se estás a gozar comigo, olha que eu não percebo.
- São muitas as coisas que tu não percebes, e esta nem sequer é a mais grave. Telefona-lhe!
Violetta acabou de engolir uma garfada de massa e pegou no portátil.
- Queres que eu me vá embora? Queres ficar completamente sozinha enquanto falas com o teu poeta e jogador de futebol budista? – Mattia continuava metodicamente a engolir aletria e raiva.
- Não. Fica. Não quero ficar sozinha. Quando muito, vou para aquele lado.
- Óptimo. Assim eu entretanto arrumo a cozinha.
Violetta tentou primeiro o telemóvel de Eugénio, que estava desligado. Então marcou o número de casa, sem muitas esperanças. Eram nove horas da noite e Eugénio nunca jantava em casa sozinho. È capaz de estar no cinema, pensou Violetta, e, enquanto pensava, alguém levantou o auscultador e disse: - Estou?
Aquela elegante voz feminina não lhe era completamente estranha.
- Quem fala?
- Desculpe, com quem quer falar?
- Com o Eugénio Martano.
- Só um momento, que eu vou passar – disse a voz, com uma ironia zombeteira que não parecia plausível, mas que passou a ser quando a voz gritou, com uma perfeita clareza de tom e de dicção: - Eugénio! Receio que tenhamos sido apanhados. Deve ser a tua namoradinha.
Violetta ficou pregada ao telefone, e a sua expressão mudou de uma forma tão visível que Mattia parou de mexer com os pratos na bancada e se aproximou dela, cauteloso.
- Violetta... – era Eugénio, com uma voz ofegante e excitada, como se fosse dizer-lhe: «Meu amor! Encontrei a tua irmã, e também arranjei duzentos e cinquenta mil euros para comprar a Flo!» Mas o que lhe disse foi: Violetta, lamento muito que isto tenha acontecido agora, e desta forma, mas se calhar ainda é o melhor. Sabes quem atendeu?
- Não, ou seja, é uma voz que não me é estranha, mas...
- É a Sílvia Bafaro.
- A Sílvia Bafaro? O que é que ela está aí a fazer?
Naquele momento Mattia imobilizou-se completamente, tipo animal selvagem que se prepara para imobilizar um bando de pequenas gazelas.
- Não me parece que seja muito difícil imaginar, Violetta.
- Mas... como é isso? Tu... Eugénio, o que se passa?
- Vá lá, estás farta de saber. Há já algum tempo que ando com ela. Outra qualquer já teria dado conta... não faço outra coisa senão contar-te mentiras e arranjar desculpas para não estarmos juntos... o problema é que tu não quero mesmo saber de mim. Nunca foste ciumenta, nunca estiveste... não sei... apaixonada. Há anos que te engano e tu nunca suspeitaste, tinhas sempre mais que fazer.
- Como é que me enganas há anos? Mas sempre com ela?
- Não, imagina... com muitas outras.
- Mas... por que me dizes isso assim? Porque me tratas assim?
- Porque quero que assimiles o principio da realidade, e a verdade é que nunca soubeste fazer levedar o meu amor, nutri-lo, fazê-lo dar ramos e folhas e... – Eugénio interrompeu-se, porque Sílvia, à sua frente, olhava para ele com a expressão de alguém que não aprecia as metáforas vegetais. – Em suma, nunca me deste aquilo que eu precisava, e agora encontrei uma mulher que me ama de verdade. E depois também acabei de beber quatro caipirinhas.
- Desculpa lá, e fazes-me isto agora? Depois de amanhã tenho o concurso, não podias ter esperado?
- Só precisavas de não me ter telefonado hoje. Eu tencionava dizer-te no sábado.
- Mas tu querias casar comigo! Andavas a ver casas, e depois aquelas histórias todas das crianças, o «lagotto»...
- Continuo a querer casar-me. Mas com a Sílvia.
-Com a Silvia? Mas tu estás parvo?
Violetta desligou, muito perturbada. Mas aquilo não era nem metade da perturbação de Eugénio, quando a mulher com quem acabava de declarar que se ia casar se virou contra ele como uma fúria, insultando-o. – Imbecil! Cretino! Não devias ter feito isso! Só lhe devias ter pregado um grande susto!

Eugénio fitava-a sem perceber, como um killer idiota."

A abelha do amor – Stefania Bertola

Clauclau às 15:37

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