Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Rio das flores Vl

"- Mãe, não pode consentir que o Diogo se case abaixo da sua condição! Tão abaixo, que eu até tenho vergonha de imaginar a própria festa de casamento! Vamos ser humilhados perante a vila inteira e vamos ver ainda quem é que aceitará vir...
Maria da Glória suspirou. Se ali estivesse o marido, o mais certo seria a opinião dela não contar para nada, naquele assunto. Mas a viúva de Manuel Custódio Ribera Flores detinha agora um novo estatuto, mais simbólico do que real, mas assim mesmo de alguma importância: era o chefe nominal da família ou, melhor dito, a guardiã da vontade presumida do defunto chefe e seu marido.
- Pois, Pedro, realmente o Diogo não deveria casar-se abaixo da sua condição... Homem algum deveria casar-se abaixo da sua condição...
- Não é apenas casar-se abaixo da sua condição, mãe: ele quer-se casar com a filha dum antigo rendeiro nosso, toma miúda que nem sabe sentar-se à mesa, dessas que andam por aí a abrir as pernas a quem passar e exactamente à espera da sorte grande de fisgar alguém como nós!
- Mas ela não é dessas, pois não, Pedro? - Maria da Glória ficara hirta e a sua firmeza impressionou o filho.
- Não, mãe, para dizer a verdade, não consta que tenha sido dessas. Mas isso só prova que é esperta, soube-se guardar...
-E é algum crime ser esperta, é mau ter-se sabido guardar - ou por esperteza, como tu dizes, ou por natureza?
- Mãe! - Pedro arrastou uma cadeira e veio sentar-se em frente dela, segurando-lhe a mão, para a forçar a olhá-lo de frente. - Mãe, diga-me uma coisa: acha que o pai aprovaria este casamento?
Maria da Glória não retirou a mão do filho nem evitou o seu olhar;
- Queres que te diga o que penso, com toda a verdade? Penso que o teu pai não aprovaria este casamento, com toda a certeza. Mas esse foi sempre o problema do Diogo, como bem sabes: ser dono de si mesmo, construir a sua vida, para além da vontade do pai. Se o pai fosse vivo, o mais provável é que o Diogo fugisse com a Amparo, para se ir casar e viver longe daqui. Dou graças a Deus por o casamento o manter aqui connosco.
- E como sabe a mãe que ele se vai manter aqui?
- Porque ela - ela, Pedro! -, porque vem de baixo e nasceu aqui a comer o pão que o diabo amassou e a ver o pai dela arrancar à terra todos os anos o seu sustento, ela - ouve-me bem, ela, e não o Diogo! - é que dá o verdadeiro valor à terra e a tudo isto. E ela que o vai fazer ficar em Valmonte."
Rio das flores - Miguel Sousa Tavares
Clauclau às 23:13

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