Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2007

Rio das flores lX

"- Diogo, estás muito mal?
- Estou péssimo. Amparo. Acho que vou morrer! Desculpa, mas hoje não consigo fazer nada, nem estou digno de ti: a tua noite de núpcias vai ter de ficar para amanhã!
"Isso é o que tu julgas!" - pensou ela, sorrindo. Apagou as luzes todas do quarto, deixando apenas duas velas acesas. Em esforço, soergueu aquele corpo morto e encostou-o às costas da cama. Despiu-lhe o casaco do fraque e o colete, à custa de persistência e ginástica. Depois, descalçou-lhe os sapatos e as meias, fez-lhe escorregar as calças pelas pernas abaixo e, sem que ele desse qualquer sinal de consciência, desapertou-lhe os botões de punho, desfez-lhe o nó da gravata e começou a desabotoar-lhe a camisa.
- Amparo - murmurou ele, de voz arrastada -, não é preciso vestires-me o pijama... eu não uso pijama...
- Não, meu amor, não é preciso.
Ele fechou os olhos, rodou a cabeça para o lado oposto e pareceu mergulhar num coma instantâneo.
"Paciência!", pensou ela para consigo. "Tinha sonhado que me ia despir para ti e que iria ficar morta de vergonha e de excitação ao fazê-lo, e afinal tenho de o fazer só para mim! Mas esta é só a primeira noite da nossa vida juntos e hás-de ter tempo para ver e apreciar."
[...]
Amparo agarrou no frasco de óleo de poejos colhidos na ribeira, cheirando a flores do mato, e lentamente começou a esfregar-se de cima para baixo, sentindo um calor húmido descer-lhe pelo corpo e subir-lhe ao juízo.
Entrou na cama toda nua, virou-o para si e encostou-se ao corpo dele, que agora apenas vestia umas ceroulas de algodão. Começou a percorrê-lo com as mãos e, inclinando-se, fez-lhe deslizar as ceroulas pelas pernas abaixo, até lhe saírem pêlos pés. Muito tempo sonhara com aquele momento em que pela primeira vez veria um homem nu, deitado ao seu lado e ao seu dispor. Olhou-o com um sentimento de desejo e de posse que nem a visão de uma coisa mole e adormecida entre as pernas dele conseguiu desfazer. Mas ela sabia que não era assim: tinham-lhe ensinado que não era assim, que essa coisa, agora murcha e desfalecida, crescia de repente e sem aviso, tornando-se um falo ameaçador capaz de a romper por dentro e fazê-la sofrer das dores e da vergonha dessa submissão a que as mulheres se condenam por casamento. Mas ela queria essa dor e essa vergonha. Essa danação do casamento."
[...]
"Amparo olhou para ele e sorriu. O morgado de Valmonte, o senhor engenheiro, o menino Diogo estava bêbado como uma carroça, com uma mulher linda, virgem e nua, sentada na cama ao seu lado e à sua disposição. Mas não se importou: agora, o morgado, o engenheiro e o menino eram também o seu marido, o seu homem. E tinha todo o tempo do mundo para ele. A começar já por esta noite.
Lentamente, sem pressa alguma, começou a percorrê-lo de cima para baixo, com a palma da mão aberta, com a boca, molhando-o ao de leve, e com o nariz, aprendendo o seu cheiro. Nunca antes lhe permitira ela nada de semelhante, mas agora era diferente: soubera esperar e merecer este momento. E devagar chegou lá abaixo, onde dormia o monstro adormecido do seu adormecido marido. Contemplou-o assim, exposto, inconsciente, sem nada a escondê-lo dela. Instintivamente, estendeu a mão a medo e tocou-o. Gostou de o sentir na sua mão, da consistência da pele, da vida que nele sentia fervilhar, apesar de adormecido. Segurou-o com uma mão primeiro, depois com ambas, virou-o, levantou-o, mediu-lhe o peso, foi-se apoderando dele aos poucos, até que um gemido de Diogo a fez parar de repente, envergonhada e temerosa do que seria a reacção dele. Mas ele calou-se e ela continuou a mexer-lhe e a brincar com ele, sentindo um calor húmido descer-lhe pela barriga abaixo e instalar-se entre as suas coxas. Depois, quase imperceptivelmente de início, e a seguir já claramente, começou a senti-lo crescer dentro da sua mão fechada em volta dele. Novo gemido veio da cabeceira da cama, mas, desta vez, "ela não parou nem se tolheu: estava fascinada com o que via e o que sentia. Irresistivelmente, foi aproximando a cara daquele membro gora palpitante de vida, até que, quando já estava tão perto que lhe pareceu impossível recuar, puxou-o para si e provou-o.
Diogo tinha despertado por completo. Aliás, fora despertando aos poucos, havia já um bocado, quando o chamamento do sexo (que, como se sabe, nos homens é independente da cabeça) o arrancou ao seu sono etílico. Ao princípio, nem se lembrava onde estava, depois foi tomando consciência do que se estava a passar: a sua mulher, casada com ele há não mais do que umas horas, explorava-o indecentemente, sem pudor algum, enquanto o fazia adormecido. Mas aquilo era bom, caramba, se era bom, as mãos dela afagando-o, envolvendo-o, fazendo-o crescer como homem apto para o seu dever dessa noite, a língua quente e molhada descendo-lhe pelo pescoço, pelo peito, pelo estômago, pelas coxas! Sem saber como reagir e o que pensar, deixou-se ficar quieto, fingindo-se ainda adormecido, só não conseguindo impedir-se de soltar um gemido, de vez em quando. Pensar até onde é que ela iria, onde é que pararia, enchia-o de um prazer desvairante e de um terror absoluto. Sentiu, apesar das nuvens do álcool no cérebro, que aquela noite, e por iniciativa dela, marcaria para sempre a vida sexual de ambos e o tipo de casamento que iriam ter até ao fim dos dias. Por isso, e porque beneficiava da imensa vantagem de se poder fingir adormecido e, mais tarde, simular que nada sabia do que se tinha passado, ele continuou a jogar o seu jogo disfarçado, deixando que ela se expusesse completamente,
E assim talvez tivesse ficado pela noite fora, não fosse ter perdido o controle da sua imobilidade, quando sentiu a boca dela entre as suas coxas.
- O que fazes. Amparo? - perguntou, como se tivesse acabado de acordar.
Ela não respondeu. Continuou. E continuou ainda, como se estivesse sozinha e não lhe devesse explicações.
Aliás, explicar o quê?
- O que fazes? - E agora tinha-lhe agarrado a cabeça com as mãos.
- Amo-te - respondeu ela.
Então, ele puxou-a para cima de si, mergulhou a boca na dela como um possesso, viu enfim, e pela primeira vez, o que há tanto desejava ver - aquele peito grande, empinado e de bicos escuros e grossos - e agarrou-o com mãos ambas e depois abocanhou-o como se mamasse, e foi a vez de ela começar a gemer baixinho.
- Vem - disse ele. - Vem para baixo de mim!
- Gosto de estar assim, por cima de ti - respondeu ela.
- Não, mas agora vens para baixo de mim!
Ela rodou, obediente, e sentiu que todo o peso e todo o fogo dele que ela despertara tombavam sobre si.
- Por favor, Diogo, faz devagar! Não quero que me doa, quero que seja bom, muito, muito bom!
Ele parou um instante a contemplá-la. Estava linda, nua, deitada à sua espera, o corpo moreno, húmido do óleo com que se esfregara, brilhando com reflexos de ouro à luz da vela. E entrou nela devagar, conforme ela pedira.
Devagar e cada vez mais fundo, até que um dique se rebentou algures, não sabia se dele, se dela, se de ambos, e, quando mais tarde foi saindo devagar de dentro e de cima dela, viu que havia uma mancha espessa sobre o lençol de linho branco e sangue que coagulava no exacto sítio em que a possuíra pela primeira vez."
 
 
Rio das flores - Miguel Sousa Tavares
Clauclau às 23:25

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2 comentários:
De livros2amao a 27 de Fevereiro de 2008 às 22:11
Tenho este livro na estante à minha espera... :)
De Clauclau a 28 de Fevereiro de 2008 às 00:12
A história é realmente brilhante. Muito realista e muito bem conseguida...

... no entanto, tem muitas passagens que invocam momentos históricos... e quanto a esses, posso dizer que me concedi o direito de saltar algumas passagens.

Deveria gostar mais de história... mas confesso... dados históricos não é o meu forte... mas toda a narrativa está muito bem estruturada e a narrativa faz lembrar velhas histórias que ouvia contar sobre os meus antepassados que andaram pelo Brasil ... uma mulher cá... outra lá...

E ainda dizem que a nova geração é que se porta mal... lol

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