Sábado, 15 de Dezembro de 2007

Rio das flores X

"Sim, um acaso, porque o que lhe acontecera nem sequer era natural: os filhos e filhas dos ricos eram quase sempre mais bonitos e atraentes do que os filhos e filhas dos pobres. Alimentavam-se melhor, iam aos médicos, tratavam dos dentes, vestiam-se à moda e cuidavam-se bem mais. Falavam mais bonito, aprendiam maneiras e frequentavam-se apenas uns aos outros.
Pouco a pouco, tão discretamente quanto a sensatez lho aconselhava. Amparo foi tomando pé nas coisas da casa, nos domínios que, por longa tradição, eram os das mulheres: aos homens, o cultivo das terras, o gado, a floresta, a caça, as feiras; às mulheres, o governo da casa e da cozinha, o cultivo da horta e a criação da capoeira, as roupas e as limpezas. Entre nada de substancial fazer, o que seria malvisto, ou querer fazer de mais, como que roubando o lugar à sogra, o que seria inconveniente e imprudente, Amparo foi descobrindo, tacteando, conquistando paulatinamente o seu lugar em Valmonte. Ao contrário do costume, porém, inibia-se de tratar a sogra por mãe, e procurava não fazer nada que fosse contrário à forma como ela fazia. Aliás, sabia que tinha muito a aprender com Maria da Glória, algumas coisas que não custava imitar e outras que, a bem dizer, demoravam gerações a aprender: como pôr a mesa, que bebidas oferecer em cada altura, como dar ordens às criadas, como mandar dobrar as camisas dos homens depois de engomadas, como comer à mesa, quando falar e quando ficar calada.
Era todo um mundo novo que ela queria absorver sofregamente mas sem dar nas vistas e cuja entrada Maria da Glória lhe franqueava, ensinando-a, sem que lhe falasse de cima para baixo, mas também sem deixar de a corrigir quando o entendia necessário.
- Dona Maria da Glória, ponho um pau de canela nas compotas de laranja? - perguntava ela à sogra, tentando imitar o que vira, numa tarde em que estavam as duas na copa a encher boiões de vidro com doces e compotas de laranja, amoras e figo.
- Só nas de laranja amarga - respondia Maria da Glória, como uma professora primária corrigindo a aluna.
- Vem cá, Lurdes, prova-me aqui esta compota – dizia ela para a criada, estendendo-lhe o frasco de compota de amoras para que ela lá mergulhasse o dedo e provasse.
Maria da Glória observava em silêncio pelo canto do olho, esperava que a criada saísse e só então lhe dizia:
- Amparo, não se prova com o dedo e, aliás, a única criada que pode provar é a cozinheira Maria."
Rio das flores - Miguel Sousa Tavares
Clauclau às 23:32

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