Sexta-feira, 14 de Setembro de 2007

Sentir a falta dele

“Não se pode dizer uma coisa dessas, pelo menos, assim de repente. Eu não sei se senti a falta dele. Ou seja, geralmente só se sente a falta de uma pessoa quando ela sempre esteve presente e depois se vai embora por pouco tempo. Se essa pessoa se vai embora e não volta, é como se nunca tivesse estado presente. Não é assim?”

A outra face do amor – Catherine Dunne

Quinta-feira, 13 de Setembro de 2007

Sem contacto visual

“Lisa estava a ver televisão quando Rose chegou a casa.
- Olá, querida. Estás bem?
Ela encolheu os ombros. – Sim, estou bem – respondeu , e continuou a olhar fixamente para o ecrã. Rose não disse mais nada. Sentou-se ao lado da filha no sofá, deixou que o seu coração abrandasse e os seus olhos deambulassem, cegos, até à televisão.
Era uma técnica que aperfeiçoara ao longo dos anos. Os adolescentes – pelo menos os adolescentes da sua família – pareciam comunicar os seus problemas mais livremente se não fosse imposto nenhum contacto visual com o progenitor. Rose recordava-se de como costumava dirigir-se ao topo da cabeça de Brian enquanto ele estava concentrado nos jogos de computador. Também no passado ficara bastante familiarizada com os contornos angulosos das omoplatas de Damien enquanto o seguia à volta da cozinha. Mantinha-se prudentemente vários passos atrás dele, aproximando-se tanto quanto podia, esperando pacientemente enquanto ele procurava comida no frigorifico, ou abria e fechava os armários de cozinha. Foi nessas circunstâncias que teve as conversas mais profundas, mais difíceis, mais reveladoras com os seus filhos.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Quarta-feira, 12 de Setembro de 2007

Submissão

“Uma vez tivemos uma terrível discussão sobre esse assunto, e eu acabei por me sentir culpada. Sentia que não tinha o direito de o desafiar; afinal de contas, eu não ganhava dinheiro. Estava entre a espada e a parede, mas, para ser justa, não entendia assim nessa altura. Suponho que me submetia a ele, à sua experiência profissional, à sua... perspicácia. O meu território era a minha casa e os filhos. Era o desejo de ambos. Até que ele falhou, claro.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Clauclau às 23:59

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Terça-feira, 11 de Setembro de 2007

Tarefas domésticas

“Rose dobrou cuidadosamente a roupa seca e deixou-a na cama do quarto de visitas. Dobrada assim, o trabalho de engomar era menor. Fora uma maneira de persuadir Damien, nos primeiros tempos, depois Brian, e agora Lisa a realizar esta rotina: isso, e a autorização para ouvir a música tão alta quanto quisessem, desde que ninguém incomodasse os vizinhos.
- Como os preceitos se quebraram – observava uma vez Jane, há uns anos atrás. Tinham estado sentadas na cozinha de Rose bebendo o habitual copo de vinho numa sexta-feira à noite. – Pensar que costumava passar as cuecas e as meias a ferro. Agora, as coisas saem do secador, ou da corda, alisam-se rapidamente, dobram-se rapidamente e, regra geral, já está. Ninguém se preocupa com os pormenores.
Jane rira-se dela. – O teu segredo fica bem guardado. Prometo que nunca direi a ninguém que costumavas engomar as meias!
Mesmo assim, reflectia agora Rose, embora a rotina doméstica tivesse sido reduzida a um mero processo de manutenção, era incrível o tempo que se perdia. Ir às compras, cozinhar, lavar: mesmo as coisas mais básicas exigiam horas enérgicas e suplementares de uma semana já de si preenchida. Muitas vezes sentia falta do lado ociosos da sua antiga vida; vezes em que desejava realizar todas as velhas obrigações num ritmo mais lento, mais ponderado e meticuloso. Sentia falta da vida doméstica; agora tudo o que fazia parecia ser, na melhor das hipóteses, cuidar da casa. Na pior das hipóteses, distinguia-se por ficar à frente do pelotão, manter a cabeça fora de água.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Clauclau às 23:56

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Segunda-feira, 10 de Setembro de 2007

Crescer

“Quando é que os jovens finalmente crescem? – perguntou Rose subitamente. – Com a sua idade, eu estava casada, trabalhava e cuidava da casa. Não quer dizer que queria que ele faça tudo isso – acrescentou apressadamente. – Eu era demasiado jovem; agora sei isso. Mas estes miúdos são tão diferentes da minha geração, da minha experiência, que me sinto uma estranha, alguém que veio de outro país a tentar aprender uma nova língua.
- Não é a única. Ficará satisfeita por saber que a Associação Americana de Psiquiatria concluiu recentemente que o fim oficial da adolescência – em particular nos jovens ocidentais – é actualmente aos trinta e quatro anos. – A Dra. Keane levantou-se, sorriu com vivacidade e fechou o processo do Damien. – Ainda tem muito que caminhar.
Rose deu-lhe um aperto de mão. – Isso é se eu viver até lá. Deus do Céu, tenho lá mais dois em casa. Por este andar, só estarei livre deste imbróglio aos setenta. Que perspectiva... Poderei reformar-me, os meus filhos serão independentes e poderei descansar aos setenta? A vida é difícil.
A Dra. Keane riu-se. – Não se preocupe. As coisas tornam-se mais fáceis.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Domingo, 9 de Setembro de 2007

Recompensas

“Teve uma súbita e tremenda saudade de todos os anos árduos e descomplicados das infâncias dos seus filhos. Tinham dado muito trabalho, mas não problemas: todas as dificuldades maternais amplamente recompensadas por apenas um sorriso radiante.
«Como as coisas podem mudar tão rapidamente», pensou. «O que antes fora a certeza do amor e da coesão, de alguma forma se transformara do dia para a noite em angústia, alheamento, e praticamente todo o género de dificuldades.» Rose começava agora a recordar aquela noite sísmica, quando descobrira com clareza brutal e amarga que a sua acarinhada e amada família começara finalmente a implodir.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Clauclau às 00:27

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Sábado, 8 de Setembro de 2007

Arrependimentos

“Ela serviu descuidadamente, desejando que ele se fosse embora, desejando que ele nunca tivesse voltado, desejando nunca tê-lo conhecido, que os seus filhos tivessem, de algum modo, sido trazidos através do mundo espiritual.”

A outra face do amor – Catherine Dunne

Clauclau às 23:37

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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

Nada mais do que um desconhecido

“Parecia não haver mais nada para dizer. Ela olhou para ele com um ligeiro distanciamento. Estivera casada com este homem. Amara-o, preocupara-se com ele e confiara nele. Tivera filhos dele, e agora ele parecia-lhe alguém que conhecera há muito tempo, por breves momentos, numa vida anterior.
Ela não parava de sondar se sentia algo, se tinha alguma emoção. Como uma língua sondando um dente que dói, teria ficado tranquilizada por sentir a dor da sua presença. Pelo contrário, todo o sentimento parecia ter sido extraído, removido do caminho, não deixando nem a mínima brecha como recordação da sua prévia existência atormentada.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Clauclau às 23:33

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Quinta-feira, 6 de Setembro de 2007

Necessidade de mudar

“O pensamento repentino surpreendeu-a há muito que não se sentia assim, há anos, desde os primeiros tempos que se seguiram à partida de Bem. Nessa altura, a sua vida era preenchida com pães de forma, bolos, pizzas; toda aquela massa fermentada a crescer uniformemente no calor inebriante e emocional da sua própria cozinha. Os seus dias tinham-se tornado uma rotina vaporosa de misturar, amassar, provar. Enquanto tudo à sua volta crescia e se desenvolvia e duplicava em tamanho, ela via-se a definhar e engelhar-se, a desaparecer nas fronteiras da sua própria existência. Ao fim de quase dois anos estava farta: necessitava de estar noutro lugar, algures onde pudesse respirar. Aproveitara a primeira oportunidade que se lhe deparara: um estabelecimento por arrendar, algo deteriorado e mal equipado, é certo, mas próximo de casa, barato e destinado a ser dela. Ela sabia-o; sentia-o.
...
- Talvez tenhas razão – admitiu, finalmente. – Não sei ao certo que género de mudança posso empreender, mas não posso continuar assim, com o dinheiro a escoar-se como se o futuro não existisse.”
A outra face do amor – Catherine Dunne
Clauclau às 18:20

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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2007

Ponderação

"Sinto-me como aqueles ratos horríveis na roda, rodando e rodando freneticamente sem ir a lado nenhum.
- Além disso, os regulamentos do Ministério da Saúde estão cada vez mais exigentes. Preciso de um sítio apropriado.
Pauline fora calma, profissional, tal como o pai. – Entendo isso, Rose, mas estas instalações que tens em mente não são adequadas. Pensa um pouco: por que razão são tão baratas? Por que motivo estão há tanto tempo à venda? Como tua solicitadora, seria negligente da minha parte deixar-te assinar este contrato de arrendamento. Tem mais buracos do que um coador.
Rose já se atirara para a antiquada cadeira de braços, aborrecida e derrotada. Pauline tinha razão, claro. E isso era apenas mais uma das muitas coisas que tornava tudo pior. Estiveram sentadas em silêncio até à fúria impotente de Rose se desvanecer, como um foguetezinho de Carnaval de uma criança."
 
 
A outra face do amor – Catherine Dunne

Clauclau às 18:13

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