"Pensei em F., na sua beleza frontal e sem subtilezas, sólida certeza de mulher do Ocidente. Diz-se que, de quando em quando, F. atraiçoa o marido, discreta mas empenhadamente. Parece-me verdade, isto: há sinais que não enganam. E, hoje à noite, F. vai estar sozinha, o marido vai dormir num aldeamento turistico fora da cidade, cuja compra anda a negociar. Pergunto-me se valerá a pena: penso nas suas pernas compridas, o peito amplo, os olhos rasgados, a sua boca grande. Certamente que ela não quererá mais do que eu próprio quero, falta-me descobrir a consistência da sua pele, agarrá-la pelos cabelos, anadar à roda como a ventoinha suspensa do tecto no quarto do hotel, o corpo húmido de F. sobre o lençol de seda de Sião, e depois sair futivamente, como um ladrão nocturno. Valerá a pena? Remorsos, sim, é verdade, às vezes tenho remorsos. Vejo-me em sonhos como um pássaro negro, crepuscular, alimentando-se nas sombras, nos desperdícios, nos destroços, das vidas alheias. mas, afinal, o que se leva da vida, senão remorsos? Remorsos do que podia ter sido e não foi e do que se perdeu depois de ter sido. Remorsos do que devia ter sido dito e feito. Remorsos destes eternos desencontros, desta sensação de que nada existe no seu tempo certo, de chegar sempre tarde ou partir cedo demais. Por que será que a seguir à noite vem sempre a manhã e de manhã pesa sempre nos olhos e na alma o que se fez e desfez de noite - um corpo húmido deixado num lençol de seda e o ladrão furtivo desse corpo abandonando o quarto que não é seu, em direcção ao vazio de tudo o que lhe pertence, inutilmente?"
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