Quarta-feira, 13 de Junho de 2007

Murchar

“Anoiteceu, vê lá. Devia jantar, correr as persianas, ler um livro ou as últimas páginas do jornal, ligar o telemóvel, regar as plantas. Sobretudo aquela que pus no parapeito da janela, com as folhas redondas e macias, pequenas pegadas de cetim roídas pelo dente da gata. Há uns tempos atrás dei-me conta que a planta definhava a olhos vistos. Apesar dos cuidados cada dia que passava via-a sempre menos verde, cada vez mais encolhida. No dia em que ma ofereceu David recomendou-me cautelas, deu-me os conselhos que a florista lhe recomendou sobre o modo de a tratar. Disse-me que se chamava qualquer coisa que esqueci mas que era mais conhecida pela planta da felicidade, o que me tornava responsável por um destino maior do que o vegetal. Por isso decidi comprar uma dessas revistas sobre plantas de interior e segui à risca os conselhos que aprendi. Estava tão certa de que se aplicasse todo o zelo de que sou capaz tudo correria bem que nem me preocupei seriamente na noite em que ele largou o telecomando e saiu a correr da minha casa. Mas a verdade é que há uns tempos a planta começou a definhar a olhos vistos, as folhas saturadas de sinais, como mãos velhas a cair no parapeito da janela. Até que alguém me disse que eu devia conversar com a planta, dizer-lhe qualquer coisa que alegrasse a sua alma vegetal. Eu não sabia o que havia de lhe dizer, percebo pouco de almas, muito menos ainda das que se ocultam sob a impassibilidade. Lembrei-me de ir buscar a revista e pus-me a ler-lhe em voz alta a sua história, o nome difícil que lhe deram, o nome por que era conhecida, a terra de onde vinha, os cuidados que era preciso ter para se sentir feliz numa casa como a minha, nos quais não se incluía uma conversa. Acrescentei um pouco de história particular da nossa vida em comum, como nos tínhamos encontrado e através de quem, a natureza simbólica das duas folhas de cetim. Tentei torná-la tão responsável como eu por um destino partilhável. Ainda não se notam muito os resultados. As folhas continuam a cair, todos os dias conto as pequenas pegadas no parapeito da janela e fico aliviada quando diminuem. Tenho confiança que o conhecimento da sua identidade lhe devolva a vida. Entretanto vou ficando à espera, bebendo mais um copo, soletrando palavras sobre palavras gastas, recordando e pressentido com a mesma falta de ousadia.”
 
À tua espera – Julieta Monguinho
 
 

Clauclau às 00:57

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Sábado, 2 de Junho de 2007

Voltará?

“Por isso agora convido-te a imaginares que estou diante de uma janela fechada e observo através dos vidros o movimento de um bairro periférico, à espera de ver voltar aquele a quem chamo o amor da minha vida. Não sei quando voltará, podem faltar minutos, horas, anos....”
 
À tua espera – Julieta Monginho
 
 

 

O tempo passa por mim, implacável e sem piedade, sem olhar ao lado e sem me dar tempo... tempo para alterar o que já não posso alterar, para apagar o que já não pode ser apagado e para viver o que já não pode ser vivido. Perdi minutos, horas, dias, anos iludida pelo amor. Gastei o tempo que já não volta num amor que o próprio tempo diluiu.

O tempo que me mostra a cada dia que passa que deixei de acreditar, que deixei de ter esperança, que deixei de desejar voltar a investir, voltar a amar, voltar a sofrer... 

Não está escrito que tenha de amar, de ter um lar, uma família. Cada vez me convenço mais que não pertenço a esse mundo, que nunca irei conseguir ter a família de sonho que um dia sonhei. Olho para o lado, e vejo que já é tarde, que é tarde para começar do zero. Estou cansada, exausta, desiludida com a vida, com o mundo, com uma panóplia de sentimentos falsos que nos alimentam os sonhos e que os transformam em pesadelos. Começo a acreditar que vivo numa sociedade sem valores, sem sentimentos... estes ficaram presos no passado, há anos atrás, talvez séculos. Olho à minha volta e só vejo falsidades, traições e infidelidades.

Hipócritas! Tentam mostrar vidas de sonho, que invejamos sem saber que o terreno está completamente minado, sem saber que vivem em guerra permanente, debaixo do mesmo tecto, escondidos por quatro paredes. E nós, puros imbecis, acreditamos que a felicidade plena existe. Pura utopia. É-nos vendida como um pacote de férias em que só nos é mostrada a parte boa da viagem, mas ninguém nos adverte dos mosquitos, das cobras e dos lagartos.

Pensando bem, tudo isto é relativo, quantos são os casos que sabem que o terreno está minado, que vivem mergulhados em sentimentos falsos, e que mesmo assim continuam a aparecer de mãos dadas e com um sorriso na cara.

Não... não suporto infidelidades, traições, mentiras, falsidades... não sei viver nesse mundo em que todos vivem iludidos. Sei que não voltarás, mas se voltasses também já não irias encontrar nenhuma porta aberta... sim, a culpa é tua. Tua e do tempo. São vocês os únicos culpados da destruição do véu que me tapava a visão e que me fazia acreditar no amor.

 

Clauclau

 

 

 

 
 
 
“Eles ficam fartos daquilo que têm, levantam-se e vão-se embora.”
“Já ninguém sente as coisas que diz. Tudo é temporário. Nada dura.”

 Namorada dos meus sonhos – Mike Gayle

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